ESCONDIDINHA NOS FUNDOS DO MERCADO MUNICIPAL DE SÃO LOURENÇO EXISTE UMA CASA COLORIDA E CERCADA DE FLORES. LÁ É A LOJA-CASA DO CAMINHO DO ARTESANATO.

ARTESANATO DE QUALIDADE, CURSOS, PALESTRAS E EXPOSIÇÕES OFERECE ESSE ESPAÇO QUE É UM CENTRO CULTURAL E OFICINA DE ARTE.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

REVELANDO O ARTESANATO


Depois de fazer vários Cursos de Capacitação e de Design em Artesanato, depois de ouvir as inúmeras instrutoras a dizer sempre a mesma coisa – não copiem das revistas, não busquem os programas de tv e seus passo-a-passo - acabei ficando muito crítica e exigente quanto ao artesanato. Não consigo simplesmente copiar o que já está pronto.

"Bela escultura do ceramista Bernardo Ilg"

Uma enorme inquietação tomou conta de mim, uma ânsia de criar algo novo e diferente – num mundo em que tudo já foi criado...- e como é difícil produzir assim !

Para buscar amparo nesse eterno questionar, fui pesquisar ARTESANATO, e aqui está um pouco do que encontrei :

"Frutas em madeira do artesão Jorge Mendes."

Os primeiros objetos feitos pelo homem eram artesanais.

Isso pode ser identificado no período neolítico (6.000 a.C.) quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica como utensílio para armazenar e cozer alimentos, e descobriu a técnica de tecelagem das fibras animais e vegetais.

"Tapete em tear mineiro, da Luciana (Parada Ramon)".

O mesmo pode ser percebido no Brasil no mesmo período. Pesquisas permitiram identificar uma indústria lítica e fabricação de cerâmica por etnias de tradição nordestina que viveram no sudeste do Piauí em 6.000 a.C.

"Jogo americano executado em tear, pela Mercedes Calfa (Cor e Trama.)."

Historicamente, o artesão, responde por todo o processo de transformação da matéria-prima em produto acabado. Mas antes da fase de transformação o artesão é responsável pela seleção da matéria-prima a ser utilizada e pela concepção, ou projeto do produto a ser executado.

"Bordado e aplicação de feltro sobre juta, da Flora Maria (Flora da Serra)".

A partir do século XI, o artesanato ficou concentrado então em espaços conhecidos como oficinas, onde um pequeno grupo de aprendizes viviam com o mestre-artesão, detentor de todo o conhecimento técnico. Este oferecia, em troca de mão-de-obra barata e fiel, conhecimento, vestimentas e comida. Criaram-se as Corporações de Ofício, organizações que os mestres de cada cidade ou região formavam a fim de defender seus interesses.

"Bordado em lã sobre juta da Eli Cardoso (Brincadeira de Papel)".

Com a Revolução Industrial, teóricos do século XIX, como Karl Marx e John Ruskin, e artistas (ver: Romantismo) criticavam a desvalorização do artesanato pela mecanização. Os intelectuais da época consideravam que o artesão tinha uma maior liberdade, por possuir os meios de produção e pelo alto grau de satisfação e identificação com o produto.

Na tentativa de lidar com as contradições da Revolução Industrial, William Morris funda o grupo de Artes e Ofícios na segunda metade do século XIX, tentando valorizar o trabalho artesanal e se opondo à mecanização.

"Bordado sobre feltro, da Cláudia Mello (Bicho fofo) "

Artesanato, por definição é utilitário.

-Artesão é aquele que domina a técnica.

- O Artesão nunca chega a perfeição se está sempre mudando.

"Bordado sobre tecido, da Marília Araújo (Ladaínha)".

- Artesão é o criador, a mão que toma de seus ancestrais o conhecimento tradicional e o soma à sua própria habilidade, realizando peças nas quais funde utilidade, técnica e beleza. Artesão é o portador do saber cultural, é o dono dos meios de produção e portanto, de sua vida e do fruto do seu trabalho.

"Pintura em cabaça, da Marília Coli (Frutos da Terra)".

-Artesão é aquele que cria um produto que possui uma história. A história do artesão sob seu ponto de vista e percepção. Um portador da voz, das mãos, do gesto do artesão. Este objeto tem conteúdo. Objeto- pensamento de seu criador. É um objeto-mensagem.
É único, é original.

"Pintura em ferro, da Alcione (Fábrica das Artes)".

Rosa Pomar, a mais conhecida artesã/designer portuguêsa, responde a pergunta:

Que conselho darias a quem ainda anda à procura do seu próprio estilo nos trabalhos manuais?

"Começa por desligar já o computador. Na internet só vais encontrar inspiração digerida por outras pessoas. O mundo não precisa de mais pregadeiras em feltro sintético e, no mundo real, há muitas técnicas e saberes sem herdeiros. Pede à tua avó que te ensine a fazer um cesto de vime, ou recupera o tear que ela tem lá em casa e que está cheio de teias de aranha, ou aprende a fazer chinelos de ourelos e agulhas de tricot com aros de bicicleta (isto é verídico) e meias da Serra D'Ossa, porque mais ninguém sabe. Vais ter de certeza muito mais para contar do que se ficares aí desse lado, e muitas mais pessoas a querer ler-te (eu vou ser uma delas)".

"Pintura em tela, da Tania Scrivano (Fazendo Acontecer)".

"Quem, como eu, se começa a interessar por exemplo pelas tradições têxteis, dá por si a passar horas a fio nos sites de museus estrangeiros, e a tricotar meias Turcas em vez de meias da Serra D’Ossa (estas últimas condenadas a desaparecer em breve). Também não é por acaso que os designers ou empresários que querem integrar motivos populares no seu trabalho irremediavelmente acabam por pegar no galo de Barcelos ou nos lenços de namorados. É que por cá não há grande hipótese de terem visto outras coisas."

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A palavra ARTESANATO perdeu seu status e foi vulgarizada ao extremo, no momento em que "qualquer-coisa-pode-ser-chamada-de-artesanato".

Dentro de um conceito mais profundo, Artesanato não pode ser o produto copiado, multiplicado um milhão de vezes, mundo afora.

Artesanato precisa ter a inspiração e a transpiração do artesão, sua emoção e sua alma, sua certeza e suas dúvidas.

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